| |||||
Materiales comunes |
por Dirce Guilhem* y Erli Helena Gonçalves**
Introdução Os recentes avanços relacionados à genética clínica – sejam eles referentes aos testes genéticos disponíveis para pessoas em geral, para fetos em desenvolvimento e mais recentemente para embriões, ou às crescentes possibilidades de terapias gênicas e promessas de cura para um número cada vez maior de doenças – longe de poderem ser considerados uma panacéia capaz de solucionar todos os males que afetam a humanidade, nos colocam frente à possibilidade de abertura da Caixa de Pandora, uma vez que em decorrência deste novo conhecimento emergem velhos conflitos e novos e inquietantes questionamentos. Em decorrência de correlações estabelecidas, hoje é perfeitamente possível detectar um grande número de doenças genéticas e, ainda, verificar a predisposição para determinadas doenças, bem como características físicas e comportamentais presentes no genótipo das pessoas. Neste sentido, não é de se estranhar que a utilização da informação advinda da revolução genética será capaz de causar um grande impacto na vida e nas escolhas efetuadas pelas pessoas. Isso pôde ser claramente verificado pela perplexidade estabelecida entre grande parcela da população quando da divulgação da clonagem realizada em mamíferos, à época representada pela ovelha Dolly. O controle da técnica de clonagem aproximou, assim, os seres humanos de uma situação que poderia ser considerada para alguns, altamente questionável do ponto de vista ético, mas certamente não o seria sob o olhar da técnica(1). Além disso, as recentes descobertas relacionadas ao genoma humano, ao mesmo tempo em que abrem novas alternativas para a cura das doenças – através do seqüenciamento de genes e organismos dos mais simples aos mais complexos –, reativa o horror coletivo frente à possibilidade de manipulação genética de seres humanos, da utilização da técnica para fins eugênicos e discriminatórios, num claro desrespeito à diferença e aos diferentes(2, 3, 4). É exatamente por isso, que Zimmern(5) argumenta, que a utilização da informação genética poderia ser considerada delicada, uma vez que a mesma produz conhecimento que implicaria em um processo de tomada decisões. Pode ser empregada, então, em uma das duas seguintes maneiras: a primeira se refere à informação sobre a constituição genética dos indivíduos, seus genes e cromossomos, ou seja, a sua herança constitutiva; e a segunda – que apresenta um claro contraste com a primeira – é entendida como a informação genética que pode ser utilizada para se inferir conhecimento sobre a constituição genética das pessoas. Segundo o autor, seria precisamente este o tipo de informação freqüentemente utilizada na prática clínica de profissionais de saúde que atuam neste campo. É sobre essas informações, que se baseiam as análises detalhadas sobre história familiar, seus cromossomos ou DNA, tendo em vista realizar diagnósticos e predizer o nível de risco de pessoas ou famílias para determinadas doenças, como a Doença de Huntington, a Síndrome de Down, ou cânceres e diabetes, por exemplo. Ora, uma vez que no campo da genética reprodutiva, a maioria dos testes genéticos são realizados em dois momentos distintos: durante o período pré-natal ou antes da transferência e implantação do embrião no útero materno, no caso de fertilização in vitro (diagnóstico pré-implantatório), é, também, nestes momentos, que mulheres e casais se confrontam com a complexidade que as decisões reprodutivas impõem às pessoas. Conforme aponta White(6), a maioria dos casais recorre aos testes genéticos no sentido de confirmarem que a criança que está sendo gerada é geneticamente normal. Porém, no caso em que são detectadas mutações gênicas no feto, uma das possíveis opções seria a interrupção da gravidez, através do aborto seletivo. Uma outra possibilidade seria levar a gestação a termo e cuidar de uma criança portadora de deficiência. Considerando situações como estas, torna-se necessário questionar entre outras coisas, qual seria a utilização adequada de testes genéticos pré-natais e, ainda, qual o papel desenvolvido pelo consultor/conselheiro genético para dar suporte às decisões das pessoas envolvidas. Uma vez que: 1) o conhecimento genético afeta invariavelmente mias de uma pessoa – a família e a própria comunidade/sociedade estão envolvidas(6,7); 2) inexiste consenso entre os profissionais sobre o grau de severidade de vários distúrbios e sobre a possibilidade de se estabelecer uma lista contendo as doenças consideradas potencialmente letais; 3) que as decisões em genética reprodutiva são únicas e baseadas em valores individuais, que por sua vez estão inseridos em um contexto social; 4) avanços relacionados ao diagnóstico e tratamento das anomalias genéticas podem mudar rapidamente a percepção social sobre doenças genéticas e deficiências(6); 5) que além do aspecto biológico existe uma construção social sobre a deficiência e o deficiente(8,9); e que além dessas, há outras e importantes questões éticas envolvidas, tais como: 1) qual o status de embriões e fetos?; 2) como delimitar o momento no qual o indivíduo torna-se pessoa?; 3) qual a responsabilidade dos futuros pais e dos médicos com o bem-estar futuro da criança que vai nascer – o que significa exatamente isto?; 4) seria o aborto seletivo eugênico?; 5) quais as responsabilidades éticas dos profissionais de saúde no que diz respeito ao difícil processo de aconselhamento genético para que este seja isento de coerção e não seja direcionado de acordo com os valores do conselheiro?; entre tantas outras questões, fica claramente demonstrado o quanto é complicado o processo de tomada de decisões reprodutivas frente à possibilidade de um diagnóstico positivo para anomalias fetais. É exatamente neste contexto complexo que a bioética surge como instância mediadora para a análise e reflexão sobre os conflitos morais que emergem da prática cotidiana da genética reprodutiva. No entanto, é preciso considerar que as abordagens tradicionais, baseadas em princípios éticos universalizantes, como o respeito pela autonomia, direitos dos fetos e responsabilidade dos pais para com os filhos, ou até mesmo o princípio da confidencialidade, apresentam limitações importantes, pois desconsideram o contexto social no qual as decisões reprodutivas acontecem. Como argumenta White “...nem uma percepção da deficiência/incapacidade, nem a noção de direitos dos fetos ou o dever de obrigação dos pais para com a criança, fornece uma clara distinção entre o que é apropriado ou inapropriado no que se refere à utilização da informação genética; nem concepções morais estáticas servem para definir adequadamente o papel socialmente aceitável do consultor genético...”(6). O grande problema, então, residiria no fato de que estas orientações éticas não conseguem abarcar os múltiplos fatores que influenciam as escolhas pessoais, que estão, de certa forma, intimamente conectadas com as possíveis conseqüências sociais dessas escolhas. Mais do que isso, as decisões tomadas podem ir frontalmente contra aos padrões de normalidade socialmente aceitos, acarretando preconceito e estigma para as pessoas envolvidas.
Não
se quer dizer com isso, porém, que o emprego de determinados princípios não
sejam importantes mecanismos éticos. Pelo contrário, a sua utilização deve
ser estimulada, desde que estes sejam exercidos dentro de um contexto democrático
e livre de coerção. Tanto é assim, que o ensino e a defesa da tolerância –
um valor ocidental tão caro à modernidade, e também um pressuposto inabalável
da bioética –, pode ser considerado um mecanismo ético e, especialmente político,
de intervenção social capaz de contribuir por um lado para abalar as
estruturas de dominação e opressão nas mais variadas esferas da sociedade e,
por outro, para permitir o encontro igualitário entre as diferenças. A Tolerância Como Princípio Bioético: A Possibilidade de Encontro com a Diferença
É sempre bom lembrar que a bioética
caracteriza-se por provocar sentimentos
contraditórios nas pessoas que dela se aproximam. Isto acontece precisamente
porque a análise detalhada de temas tão provocativos, como é o caso da genética
reprodutiva, do aborto seletivo, da clonagem e da engenharia genética, entre
tantos outros, torna impossível manter-nos imunes à controvérsia moral que os
acompanha. Como explicar os sentimentos de fascínio e repulsa ocasionados pelo
agir bioético? Inicialmente, é possível sugerir que isto aconteça por dois
motivos: primeiro, a disciplina seria capaz de responder à aspiração de
pesquisadores e da sociedade de transformar-se em mecanismo legítimo de mediação
para os dilemas e conflitos morais no campo da saúde e da doença, daí o fascínio
social e acadêmico que ela exerce. O segundo, e que em alguma medida a própria
negação do primeiro, explicaria a repulsa resultante da constatação de sua
impossibilidade em tornar-se a resposta definitiva para os conflitos morais, o
que reforçaria, assim, o seu caráter contingencial ou, até mesmo arbitrário.
Desta forma, o que este movimento de
repulsa demonstra é a fragilidade de alguns de seus mais caros pressupostos éticos
adotados para dirimir as diferenças morais no campo da saúde e da doença.
Autonomia e beneficência, por exemplo, são antes princípios resultantes de
deliberações sociais e históricas específicas da humanidade e não pilares
universais da condição humana. Liberdade e democracia são valores tão arbitrários
e relativos quanto o são a escravidão e a opressão. É preciso extrair da
história, que como os nazistas – conhecidos por defenderem valores
segregacionistas e racistas –, que não foram, e para muitos não o são,
considerados sub-humanos por este tipo de conduta(4), também nós,
democratas e pesquisadores convictos da sacralidade da liberdade humana, somos
todos, apenas seres moralizados e oprimidos por crenças que, muitas vezes, nos
iludem e nos tranqüilizam pela certeza de serem a verdade inviolável da
natureza humana, a chave para a compreensão e assunção da felicidade(10,11).
Mesmo frente a esse caráter
relativo e, em alguma medida arbitrário, do discurso bioético, consideramos
que este ainda seja a opção mais digna para o encontro entre as diferenças
morais. Tanto é assim, que não hesitaríamos em considerá-la uma proposta
absolutamente revolucionária no campo da filosofia moral aplicada à saúde.
Diferentemente, porém, dos primeiros teóricos da bioética – inspirados em
uma tradição fortemente racionalista da filosofia e que acreditavam ser possível
pensar, elaborar e resolver os conflitos morais da humanidade referindo-se a uma
humanidade sem contrapartida no mundo real, sugerindo para isso a utilização
dos famosos e indispensáveis princípios éticos como saída para as discórdias
morais em situações de litígio(12,13) –, acreditamos que a
proposta elaborada pelas
bioéticas críticas, de tornar visíveis as
experiências dos diferentes morais, e de lutar contra a opressão moral,
significa um avanço considerável para a disciplina. Neste sentido, as bioéticas
críticas, sejam elas de inspiração feminista, racista ou filosófica, fazem
parte de um movimento que vem promovendo um de amplo questionamento sobre o
status quo das bioéticas tradicionais, que mais do que proteger as pessoas,
contribuíram para perpetuar as situações de desigualdade moral(14,15,16). Isto
não quer dizer, no entanto, que seja possível negar a importância de
determinados princípios
no processo de mediação dos conflitos morais. Como sujeitos moralizados que
somos, somente nos sentimos aptos a julgar a imoralidade de um ato, fazendo
apelo a algum preceito moral. É nesta linha de pensamento, que o princípio da
tolerância, surge como unanimidade entre os bioeticistas e defensores de
direitos humanos, uma vez que o dissenso e o pluralismo moral se cristalizam
como importantes qualidades a serem preservadas na sociedade contemporânea(17).
Mas, certamente, esta tolerância tão alardeada dentro da bioética como uma
possível solução para os conflitos precisa ser repensada.Tolerância implica
invariavelmente no encontro com o outro e no respeito às suas crenças e
valores. De uma certa forma, este encontro é um confronto com aqueles que não
comungam com as nossas próprias crenças, ou seja, com os estranhos morais por
excelência(18). E isto demonstra o quanto é tênue o limite que
separa a tolerância da intolerância. Na verdade, ser tolerante implica em
escolher uma parcela dentro do horizonte do possível moral. Significa antes,
domesticar a intolerância, como uma possibilidade para dirimir os conflitos
morais, permitindo assim, o convívio social entre as diferenças e os
diferentes, sejam eles, idosos, mulheres, deficientes físicos ou mentais, entre
tantos outros.
Neste
sentido, vale a pena verificar as diferentes gradações entre aquilo que é
considerado como imoral, intolerante e intolerável. Aparentemente são
adjetivos sinonímicos, recursos variados que representariam o mesmo: os
absurdos humanos. Mas, não. Há algo de diferente no imoral, no intolerante e
no intolerável(19). Imoral é tudo aquilo que, em alguma
medida, não faz parte de nosso repertório moral, mas que não necessariamente
mereça ser exterminado. Indubitavelmente, porém, é algo que procuraríamos
afastar do nosso convívio: as mulheres que realizam aborto (ainda que seletivo
para anomalias congênitas), aqueles que defendem o direito de morrer, por
exemplo. E, é claro, haveria sempre a possibilidade de se acrescentar algo de
imoral. Mas felizmente, afora o seleto grupo de concordância e considerando que
nossas moralidades nos impõem limites sobre o que devemos considerar aceitável,
dificilmente estaremos de acordo sobre que parcela de nossos comportamentos
morais nós trataríamos como imorais. E é exatamente esta parcela de discordância
quanto à imoralidade que está o nó da bioética, uma vez que as divergências
aumentariam proporcionalmente ao crescimento do nosso universo. Somos intolerantes
com as pessoas e questões que julgamos imorais, ou seja que estão fora do
limite da moralidade que elegemos como verdadeira.
Tomemos
como exemplo Oswaldo Cruz que no início do século passado foi imoral por sugerir a vacinação obrigatória. É
perfeitamente possível para nós, agora, indivíduos civilizados que somos e
convencidos da importância da vacinação na prevenção de doenças,
discutirmos a selvageria do aborto seletivo ou da eutanásia neonatal em casos
de síndromes genéticas incompatíveis com a vida, como temas dignos da
imoralidade de Oswaldo Cruz e de suas propostas assustadoras para a época.
Torna-se muito simples olhar para traz e criticar a ignorância daqueles que não
foram capazes de entender a proposta do sanitarista.
Mas,
curiosamente, não somos capazes de estender esse nosso olhar crítico e sarcástico
face ao passado para o redor de nós. As mulheres anônimas, descritas
cotidianamente na mídia à procura de apoio para interromper gestações
indesejadas ou incompatíveis com seus padrões de bem-viver são consideradas
imorais e insanas aos olhos de parcelas consideráveis da população. Estão
confinadas a gestar e conviver com filhos indesejáveis, em nome de moralidades
que não compartilham ou sequer reconhecem. Para muitos, viver em uma sociedade
em que há pessoas como estas mulheres
da mídia é algo degradante. E esta imoralidade exagerada e provocativa dessas
personagens deve ser punida para que se defenda a estabilidade da moralidade
vigente.
É preciso refletir sobre o fato de como, cotidianamente, no exercício público de nossas moralidades, transpomos a fronteira da imoralidade para a intolerabilidade. Vivemos com os imorais e os intolerantes mas não com os intoleráveis. Esses devem ser exterminados. Os intoleráveis – essa minúscula parcela de nossas vidas –, que se compõem por aqueles indivíduos, assim como por práticas ou crenças consideradas absolutamente impossíveis e merecedoras de intervenção, nem que seja por meio da violência. As pesquisas nazistas, por exemplo, são um caso de atos intoleráveis. Mas como e por que mecanismos elegemos os intoleráveis? Onde estaria a medida para a eleição dos intoleráveis? Quem e por quais tipos de mecanismos são determinados? Essas são, seguramente, perguntas fundamentais a serem respondidas por quaisquer sociedades, pois será exatamente a fronteira do intolerável o que determinará o limite das liberdades de crenças e atitudes, especialmente no campo reprodutivo.
Como
qualificar, por exemplo, o aborto seletivo em casos de Síndrome de Down?
Imoral? Intolerante? Intolerável. Certamente, esta não é uma questão simples
de ser respondida, frente à constatação de que a Síndrome claramente não é
uma situação de incompatibilidade com a vida. Tanto é assim, que alguns
profissionais consideram este um procedimento difícil de ser executado. Além
disso, como apresentar as reais possibilidades no aconselhamento genético, sem
direcionar/induzir a decisão das mulheres e casais. Mesmo frente a estas
dificuldades, este tem sido um procedimento freqüentemente realizado. Thomaz
Gollop, em um relato sobre a experiência do Instituto de Medicina Fetal e Genética
Humana, demonstrou que durante seus 23 anos de trabalho, em 98% dos casos
diagnosticados com Síndrome de Down, os casais optaram pelo abortamento,
independente do que apregoa a lei vigente no país(20). E embora uma
parcela considerável das pessoas seja intolerante com relação à interrupção
da gestação nesses casos, pouquíssimos de nós o consideraria um procedimento
intolerável.
Este
posicionamento acontece exatamente porque, nossas expressões de desprezo pelo
imoral e pelo intolerante são razoavelmente comuns no convívio social. Somos
desdenhosos com os deficientes mentais, com os idosos, os feios, os inesperados,
os diferentes. Mas esse nosso desdém e indiferença, essa estratégia sutil das
sociedades democráticas de assassinar a sociabilidade da diferença, não nos
conduz a considerá-los intoleráveis. Podemos perfeitamente conviver com eles,
desde que estejam longe de nós. Por isso, não é preciso recorrer à história
para verificar que nós, democratas, elegemos e delimitamos cotidianamente
aqueles seres humanos que podem ser eleitos como dignos ou indignos. Hoje não é mais necessário um estado totalitário para difundir ideologias racistas e eugênicas. É entre nós, humanistas e herdeiros do pensamento iluminista, cidadãos de uma democracia e de seus valores libertários – dispostos a defender os interesses das minorias, um grupo de intelectuais privilegiados que lutam pelos direitos dos pacientes e dos sujeitos de pesquisas –, que bate forte e silenciosamente o espírito da intolerância e a descrença pela dignidade aos diferentes. A intolerância está em nós não porque sejamos nazistas tardios ou imorais vulgares. A intolerância está em nós porque somos sujeitos moralizados e, conseqüentemente, submissos às crenças morais que nos ensinaram a crer em nossa humanidade.
Neste
sentido, um bom exemplo para análise da confusão existente entre tolerância,
intolerância e seus correlatos a moralidade e a imoralidade, pode ser o recente
debate divulgado pelo periódico científico, o Journal of Medical Ethics, entre
John Harris(21), bioeticista inglês, defensor de uma
perspectiva utilitarista na bioética e a educadora norueguesa Solveig Magnus
Reindal(22), especializada em educação inclusiva, onde
os autores trazem à tona as questões relacionadas
ao processo de tomada decisão dos pais frente à possibilidade de uma
gestação em que o feto apresente deficiências físicas. Na verdade, os
autores debatem modelos éticos sobre como lidar com a probabilidade de má-formação
fetal e, especialmente, sobre como considerar éticas ou não as decisões
familiares frente à positividade do diagnóstico.
Em
um dos casos relatados, durante o decurso de um processo de fertilização in
vitro, pôde ser verificado, após a realização do screening pré-implantatório,
que dois dos cinco embriões disponíveis apresentavam má-formações congênitas.
Mesmo diante desta constatação, o casal optou pela transferência desses embriões
portadores de anomalias, em detrimento de embriões perfeitos(21).
Frente a isso, Harris questiona se neste caso específico, seria moralmente
correto interferir na decisão autônoma do casal, transferindo-se para o médico
a escolha dos embriões a serem implantados. Ou ainda, seria moralmente aceitável
a transferência dos “embriões defeituosos” em detrimento daqueles
considerados saudáveis? Esta é uma situação extremamente delicada e
demonstra claramente como na prática cotidiana, afloram dilemas onde nem sempre
é fácil o exercício da tolerância ou mesmo o respeito pelas posturas
pessoais dos outros. Como já foi mencionado anteriormente, este é um dos casos
que o apego a princípios, como é ocaso da autonomia, simplesmente não
consegue abarcar a complexidade que envolve a questão.
Embora
o direito de tomar decisões reprodutivas – uma prerrogativa inalienável de
mulheres e casais –, seja amplamente difundido, neste caso específico, ele se
choca frontalmente com a legislação inglesa sobre reprodução assistida, o
Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA), onde é delegado ao médico
grande parcela da responsabilidade pelo bem-estar da criança que vai nascer(23).
O que realmente significa este bem-estar, poderia, também, ser amplamente
questionado: aulas de música, carro esporte, ou estar livre de constrangimentos
morais, entre uma gama variada de outras alternativas possíveis. Retomando, porém,
à argumentação autores, Reindal, procura deixar claro que este tipo de decisão
não caberia ao profissional, mas ao casal e, em última instância à mulher,
uma vez que estaria diretamente relacionada à maneira como a deficiência física
ou mental, e como o próprio deficiente são descritos e aceitos pela
sociedade(22). Ou seja, está em jogo aqui, na verdade, mais do que
um simples confronto entre o poder de decisão de médicos e pacientes. Estão
subjacentes neste processo, uma gama variada de simbolismos sobre o que a
sociedade, e particularmente os próprios pais e profissionais, consideram como
tolerável ou intolerável em termos de deficiências/doenças, determinando em
que medida é possível suportar o encontro com a diferença do outro.
Porém,
quando se considera que as deficiências físicas ou mentais inscritas nos
corpos podem ter significações diversas nas diferentes sociedades, possuir uma
deficiência pode não significar uma desvantagem social importante ou até
mesmo ser fonte de sofrimento para as pessoas que a possuem. É este
precisamente o caso dos surdos. Eles não se consideram deficientes, mas membros
de uma comunidade específica, com linguagem e comportamentos próprios. Ou
seja, estão inseridos dentro de uma estrutura social à parte e consideram a
inter-relação com os não surdos, um encontro entre estrangeiros. Ainda assim,
a escolha de um embrião que potencialmente desenvolverá surdez, por pais que são
surdos, freqüentemente é motivo de questionamento por geneticistas e pela própria
sociedade(24,25).
Diferentemente,
a falta de uma mão poderia ser considerada uma desvantagem significativa para
filhos de operários inseridos em uma sociedade capitalista. Ou, até mesmo, em
um contexto social de opressão – como é o caso da Índia ou China –,
nascer mulher, por exemplo, pode ser considerado uma deficiência,
permitindo-se, inclusive, a seleção sexual de fetos e embriões e o infanticídio
de meninas, uma concepção que para nós seria completamente inaceitável ou,
mesmo, intolerável. As assimetrias de gênero perpetuam,assim, as desigualdades
e reforçam a submissão das mulheres. Torna-se necessário enfatizar que
desigualdade definitivamente não é igual a diferença. É preciso fugir da falácia
do discurso dominante, que ao abordar o tema da igualdade passa a finalizar uma
forma dissimulada de negação da diversidade e do pluralismo, devido à sua
concepção e caráter eminentemente homogeneizantes. Desta forma, o grande desafio ético da modernidade não é sair a procura de princípios norteadores para um bem-viver universal, mas sairmos a procura de formas possíveis para conter a intolerância. Uma vez que jamais seremos sujeitos plenamente tolerantes – isso é por princípio impossível –, a saída talvez seja o exercício doloroso de transformar a tolerância em algo menos intolerante. Isto seria como transitar do estágio do suportável para um campo da humildade, da pluralidade, do reconhecimento dos estranhos morais. Mas para que seja possível e concretizável o exercício da tolerância, é preciso que tenhamos realizado o movimento prévio de descrença quanto às nossas próprias verdades morais. De onde se depreende que para que possamos nos referir à tolerância como um valor, fica evidente a exigência de que em algum momento tenhamos duvidado de nossas crenças, de nossas marcas cegas – marcas impressas em cada um de nós e que são decorrentes de nosso processo de moralização(10). Portanto para entender e escutar as mulheres que se submetem a abortos seletivos e as decisões reprodutivas efetuadas pelas pessoas além da imoralidade de suas provocações, é preciso que cada indivíduo tenha exercido o difícil, e muitas vezes impossível, princípio da solidariedade. À Guisa de Conclusão: Tolerância e Solidariedade - o Encontro com a Alteridade do outro O
princípio solidariedade – um outro conceito resgatado de um longa tradição filosófica
–, diferentemente de seu passado, muitas vezes associado à religião, emerge
como uma das prerrogativas imprescindíveis às sociedades pluralistas contemporâneas.
Mas a solidariedade de que precisamos é de oura ordem. De acordo com a
argumentação de Rorty, ser solidário com o próximo moral não é ser apenas
e tão somente solidário, é ser nada mais do que cúmplice(10).
Neste sentido, o desafio de ser solidário somente ocorre quando nos aproximamos
daqueles que desacreditamos,
daqueles que não fazem parte de nosso horizonte do possível moral, daqueles
que consideramos imorais. Mas a solidariedade exige mais do que uma mera
aproximação com a os imorais e a imoralidade. Ela exige que nos aproximemos dos imorais não
para transformá-los em sujeitos morais como nós, mas para que possamos
dialogar com eles sem imediatamente convertê-los.
Neste
contexto da genética reprodutiva, um dos exemplos paradigmáticos ocorre
justamente durante as sessões de aconselhamento genético. Algumas pesquisas têm
demonstrado que embora aparentemente haja uma disponibilidade dos profissionais
envolvidos com aconselhamento para aceitarem as decisões autônomas de seus
clientes, existe uma propensão subjacente no sentido de direcionar as escolhas
efetuadas, ou seja, de sugerir o aborto seletivo em caso de deficiências. Isto
aconteceria principalmente, segundo os autores, com obstetras que assumem a
solicitação de exames genéticos, mas que não teriam o devido preparo para
discutir as diferentes alternativas possíveis em caso de positividade. Acabam,
de certa forma, impondo seus próprios valores aos pacientes(6,25).
O
processo de aconselhamento é um momento bastante delicado e inclui, tanto reuniões
prévias, como posteriores à realização do exame. Um aconselhamento não
diretivo inclui não somente explicações sobre os fatos biológicos, mas o
estabelecimento de um movimento dialógico entre conselheiros e pacientes. Isto
torna-se necessário no sentido de: 1) esclarecer todas as possíveis dúvidas
dos clientes em um ambiente livre de coerção; 2) favorecer uma análise
detalhada sobre o que seria deficiência, qualidade de vida para as pessoas que
vivem com deficiência; 3) conhecer profundamente o contexto onde estas decisões
são tomadas; 4) proporcionar suporte para as pessoas após a tomada de decisão,
independente da opção escolhida(6). Somente adotando este tipo de
postura
seria possível
ser solidário com estas pessoas no sentido rortyano do termo, isto é, sem lhes
impor nossos próprios valores morais.
É
preciso, também, ser solidário, com aqueles casais que consideram o diagnóstico
para a Síndrome de Down algo absolutamente intolerável, a ponto de buscarem a
interrupção da gestação. Ou seja, o desafio não é apenas auxiliar uma
pessoa a gestar, mas conseguir aproximar-se de suas razões morais mesmo quando
nossas certezas morais nos impedem. É entender que não há nada na natureza
das criancinhas portadoras da Síndrome de Down que justifique ou não seu
direito à vida. O direito à vida social é um valor e como um valor não é
universal, sequer ditado pela ciência. Nem a genética, nem nenhuma outra
descoberta do pensamento humano irá descortinar essa essência inviolável da
humanidade. Conviver com esta incerteza, em última medida com esse relativismo
de referência para o julgamento imoral, é o grande desafio das sociedades
plurais e defensoras da tolerância. É preciso considerar, ainda, que embora seja doloroso admitir, vivemos em uma sociedade eugênica onde a busca pela perfeição e por bebês perfeitos, imprimem uma culpabilidade devastadora naqueles pais que podem transmitir algum tipo de doença – genética ou não – para seus filhos(26). Não é preciso recorrer aos nazistas para constatar que no sistema educacional as crianças mais bonitas (ou simpáticas e inteligentes) recebem atenção maior por parte da professora do que aquelas consideradas feias (deficientes, doentes, vagarosas). Isto corrobora com a argumentação apresentada por Silvers(8) de que a deficiência estabelece uma identidade tão poderosa que se sobrepõe a qualquer outra característica/atributo física(o) ou mental. Ou seja, a sociedade exige de seus membros nada mais, nada menos do que a perfeição. E é em nome desta perfeição, que mulheres e homens se submetem a horas intermináveis nas academias e que mulheres sentem a necessidade e se submetem as cirurgias plásticas, ou mais recentemente, à colocação de próteses de silicone. Mas esta é uma situação que tem sido muito pouco questionada. Por quê? Porque é perfeitamente tolerável conviver com ela ou, até mesmo, porque em nome de um viver saudável, permite-se dissimular o seu verdadeiro objetivo, aceitando-a, assim, submissamente. É nesta mesma linha de pensamento que a percepção corrente de que as crianças representariam o patrimônio da comunidade/humanidade – já que catalisam em si e em seus corpos, não somente a possibilidade de continuidade da espécie, mas a continuidade da própria cultura(27) –, imprime uma sobrecarga à sociedade que precisa a qualquer custo manter a perfeição e impedir a reprodução das diferenças que lhe causem constrangimento. A solidariedade com os deficientes, assim, está em aceitá-los tal qual eles são e lutar para que sejam respeitados seus direitos, de forma que as suas capacidades sejam desenvolvidas de modo a inseri-los no contexto social, ainda que estes sejam apenas tolerados. Diante desta complexidade que o pluralismo moral nos coloca, é que emergem muitos dos conflitos no campo da genética reprodutiva descritos e questionados neste artigo. Certamente, muitos outros problemas poderiam ser levantados e apresentadas diferentes respostas para a sua análise e resolutividade. Mas da mesma maneira que não há certezas e verdades válidas para toda a humanidade, reconhecemos a necessidade persistente de ampliar o nosso horizonte do possível moral, na tentativa de se iniciar um exercício diário para domesticar a nossa intolerância, preparando-nos assim, para o encontro com a alteridade do outro. É deste encontro entre a biologia – representada pelas possibilidades diagnósticas e terapêuticas advindas dos recentes avanços científicos e tecnológicos e, ainda, pelos profissionais responsáveis pela sua aplicabilidade – e a cultura – de onde emergem as mais variadas concepções e posturas morais frente à vida e à saúde –, que serão delimitados os valores morais para subsidiar as decisões no campo da genética reprodutiva. Uma vez que não será mais possível recuperar o Santo Graal, o encontro entre o sujeito técnico e o sujeito ético, representa a única possibilidade para escolher e delimitar os padrões de normalidade/anormalidade aceitos como toleráveis, os ideais de bem-viver, as referências sobre o que se entende sobre qualidade de vida, demarcando, inclusive, os compromissos morais para com as gerações futuras. É
somente dentro desta concepção ampliada e da constatação da existências de
diferentes moralidades que os princípios da
tolerância e solidariedade assumiriam o seu verdadeiro papel: permitir o
encontro e o respeito entre as diferenças e os diferentes. Seja para respeitar
a mulher ou o casal que decide – ou não – pela interrupção da gestação,
seja para proporcionar o suporte que o portador de deficiência precisa para se
inserir na sociedade. Eis aí o grande desafio ético.
Agradecimento: Gostaríamos de agradecer de forma especial à Débora Diniz pela oportunidade de havermos discutido algumas das questões desenvolvidas neste texto e pela sua preciosa contribuição.
Referências Bibliográficas HARRIS,
J. “Goodbye Dolly?” The
ethics of human cloning. Journal of Medical Ethics, 23: 353-360, 1997.
MAHOWALD,
M. B. Genes, women, equality. New York: Oxford University Press, 2000.
GILLAM,
L. Prenatal diagnosis and discrimination against disabled. Journal of Medical
Ethics, 25: 163-171, 1999.
WIKLER,
D. Can we learn from eugenics? Journal of Medical Ethics, 25:183-194,
1999.
ZIMMERN,
R.L. Genetic testing: a conceptual exploration. Journal of Medical Ethics,
25: 151-156, 1999.
WHITE,
M.T. Making responsible decisions: an interpretative ethic for genetic
decisionmaking. Hasting Center Report; 29 (1): 14-21, 1999.
WILLIAMSON,
R. What’s ‘new’ about ‘genetics’? Journal of Medical Ethics,
25:75-76, 1999.
SILVERS,
A. On not iterating women’s disability: a crossover perspective on genetic
dilemmas. In: A. Donchin and L. Purdy (Eds.), Embodying bioethics: recent
feminist advances (pp. 177-202). New York: Rowman & Littlefield
Publishers, 1999.
WENDELL,
S. The rejected body: feminist philosophical reflections on disability.
United States: Routledge, 1996. RORTY, R. Contingência, ironia e solidariedade. Lisboa: Presença, 1994. (Tradução : Nuno Ferreira da Fonseca). ROSSET, C. A lógica do pior. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. (Tradução: Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes).
BEAUCHAMP,
T. & CHILDRESS, J. Principles of Biomedical Ethics. (1ª Ed.). New
York: Oxford University Press, 1979.
BEAUCHAMP,
T. & CHILDRESS, J. Principles of Biomedical Ethics. (4ª Ed.). New
York: Oxford University Press, 1994.
SHERWIN,
S. No longer patient : feminist ethics & health care. Philadelphia:
Temple University Press, 1992.
WOLF,
S. Introduction. In: S. WOLF (Ed.). Feminism and bioethics: beyond
reproduction (pp. 3-46). New York: Oxford University Press, 1996. DINIZ, D. & GUILHEM, D. Bioética feminista: o resgate político do conceito de vulnerabilidade. Bioética, 7(2): 181-188, 1999. WALZER, M. Da Tolerância. São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Tradução: Almiro Pisetta). ENGELHARDT, T. Fundamentos da bioética. São Paulo: Loyola, 1998. (Tradução: José A. Ceschin). DINIZ, D. A vulnerabilidade da bioética. 1999. Paper apresentado no encerramento das atividades do Comitê de Ética em Pesquisa da FIOCRUZ, Rio de Janeiro. GOLLOP, T. R. Abortamento. In: V. Garrafa & S.I.F. Costa (Org.). A bioética no século XXI (pp.79-83). Brasília: Editora da UnB, 2000.
HARRIS,
J. Is there a coherent social conception of disability? Journal of Medical
Ethics, 26: 95-100, 2000.
MAGNUS,
R. S. Disability, gene therapy and eugenics – a challenge to John Harris. Journal
of Medical Ethics, 26: 89-94, 2000.
WARNOCK,
M. Report of the Committee of Inquiry into Human Fertilisation and
Embryology. Department of Health & Social Securty. London, July 1984.
NEWELL,
C. The social natures of disability, disease and genetics: a response to Gillam,
Persson, Holtug, Draper and Chadwick. Journal of Medical Ethics, 25:
172-175.
WERTZ,
D. & GREGG, R. Genetics services in a social, ethical and policy context: a
collaboration between consumers and providers. Journal of Medical Ethics,
26: 261-265.
PARENS,
E. & ASCH, A. The disability rights critique of prenatal genetic testing:
reflections and recommendations. Hasting Center Report, 29 (5): S1-S22
(Special Supplement). GUILHEM, D. Escravas do risco: bioética,mulheres e aids. Brasília, Universidade de Brasília, 2000. (Tese de Doutorado).
* Enfermeira, Doutora em Bioética, Professora Adjunta da Universidade de Brasília (UnB), atuando junto à Graduação e ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília/Brasil; Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Bioética (NEPeB/UnB); Diretora Executiva da Organização Não-Governamental Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero; Membro da Feminist Approaches to Bioethics Network e da International Association of Bioethics. guilhem@unb.br. ** Cientista Política, Historiadora, Especialista em Bioética; Mestranda em Bioética pela Universidade de Brasília; Membro da Diretoria da Organização Não-Governamental Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero; Membro da Feminist Approaches to Bioethics Network e da International Association of Bioethics erli@tba.com.br.
|
|
|